sexta-feira, 4 de maio de 2018

Os 3 aninhos da Marcela


 A gente é um Universo, filha. E desde que você chegou, o meu se expande infinitamente, todos os dias. Em 3 anos, nasci milhares de vezes e quero te agradecer por isso. Cada vez que seu olho varre o mundo, descobrindo coisas novas, meu olho se abre pra vida. Cada vez que você chega, sou uma pessoa melhor. Nascemos mulheres num mundo de homens. Nascemos mulheres se conectando com outras mulheres, estrelas. Nascemos pequenas num mundo grandão, cheio de micro verdades e nenhuma é a nossa. Ainda bem. A nossa verdade a gente descobre ou cria, todos dias, sendo assim, um Universo...

Você é uma estrela com um Universo. Nunca esquece disso. Tudo o que você quiser, filha, você vai conseguir. Sua alma é doce, sua personalidade é forte e seu amor é nítido, claro, flexível. 

Você é a minha melhor amiga, desde antes de estar na barriga, até agora pouco quando te levei pra escola. A gente pula na garagem do Batman e salta cada vez mais alto. Você me fez saltar. Um salto quântico de verdade. Cê me dá a mão pra descer a rua e a gente sobe alto pelo céu, acertando outros caminhos. E a gente ri e chora de tudo o que a vida traz porque é tudo sempre novo e, logo depois, antigo.

A gente tem o mundo pra descobrir e você veio corajosa, me fazendo ainda mais livre, mais forte, mais eu. A gente viveu tudo esses 3 anos com o coração solto. A gente vive tudo. Inteiro. Não temos meias verdades. E isso é um presente. Te sinto infinita, cada dia mais livre e bonita, no seu mundo repleto. 

E quando você canta: tututubarão, mora dentro do mar, toma cuidado mãe: ele pode atacar! meu coração vibra. Porque agora, a mãe toma mais cuidado... Com a vida, com as outras pessoas e comigo. Você é uma menina que cuida. Cuida do Dodô e acalma a Cleonice quando tem os foguinhos. Cuida dos bebês, do livrinho e da maçã. Faz caminho pra formiguinha passar e abre mil estradas pro meu coração poder ser. E você é, Lis. Você é.

Você é enorme, filha. Não esquece disso. Você trouxe uma família junto com seu primeiro respiro. Tem tantas mães junto comigo, me ajudando a ser mãe. E sou tão grata por isso. Tem tantas avós, vovôs, amigos, tios e tias. Tem os priminhos, os amigos das duas escolas, os vizinhos que te dão bom dia, todos os dias... Os cachorros da rua são todos seus. Os passarinhos que vem devagarzinho pousar por perto quando você está. O ninho que ficou no quintal e foi presente deles pra você. Você trouxe no peito a beleza das coisas mais simples. E isso engrandece tudo...

Todas as histórias que a gente lê ou inventa, cada música que a gente aprende a cantar juntas, quando a gente dança na sala ou na cozinha, o Universo se expande. E quanto mais ele estica, mais você cresce. E quanto mais você cresce, maior eu fico. 

Obrigada, filha, pelos meus 3 anos. Estou em festa. Estou ainda sem acreditar que aprendi a falar, andar, cair, levantar, chorar e pedir o que quero, com você. Aprendi a mostrar o que sinto bem na hora que sinto. Aprendi a ter família, amigos, propósito e fiz uma caixa enorme com minhas melhores coisas pra distribuir pro mundo. E fui deixando naquele cesto verde furadinho as outras coisas que não gosto tanto. Aprendi a ler as pessoas com amorosidade, a perdoar a mim mesma quando escolhi um caminho ou outro que ralou meu joelho, aprendi a olhar pro espelho e ver quem eu sempre fui. Nesses meus 3 aninhos, relembrei ser menina. E me deixei não saber nada pra reaprender tudo. 

Um monte de estrelas de gratidão pipocam no meu peito e tudo o que vier eu aceito porque agora sou. 

Quero deixar uma cosquinha, bem de levinho, no seu coração. Um beijo com barulho no cantinho do seu olho esquerdo, quero deixar minha alma em campo aberto pra você brincar. E todos os presentes que ainda vão chegar a gente vai abrir juntas. A gente vai abrir o abraço de saudade, aquela caixa grande de livros ainda não escritos, a gente vai desembrulhar o medo das coisas novas que dura só um pouquinho, a gente vai rasgar o papel de presente da vida pra ver o que tem dentro e se encantar com o barulho que faz. A gente vai tirar do forno rotinas novas toda hora e a casa vai se encher do cheiro bom que tem a vida acontecendo quentinha. E você vai assoprar pra não queimar a nossa língua. A gente vai brincar de ser tudo sem medo de sujar. 

E por tudo isso já te agradeço, filha. Todas as respostas que eu queria pararam de perguntar. Antes dos meus 3 aninhos, a mamãe era uma adulta preocupada. Vivia varrendo a escada ou esperando a encomenda chegar. Agora não tem espera, não tem compromisso tão sério, não tem a urgência de fazer acontecer porque tudo já é. Já tenho 3 anos e sei que a vida acontece sem força, sem pressa, sem medo da conta pra pagar. Quando nosso coração é de criança, a noite sempre chega, carregada de estrelas e a gente só tem que vê-las sem querer entender. E o sol nasce bonito, carregado de infinito, querendo nos esquentar. 

Agora, olha pra mim: eu te amo e a gente sempre, sempre, sempre vai estar. Porque a gente é.

Com amor, da sua mamãe que canta, ri, chora, erra, brinca, fica, segue e faz tudo pra você apenas ser exatamente o que você é.

Maio/2018


estrela com um Universoestrela


quinta-feira, 5 de maio de 2016

Relato de um parto normal: a verdade sobre o Sofia Feldman

Esperei um ano pra escrever esse post. Daqui a exatas 3 horas e 14 minutos (escrevo as 14h), nascia a Lis, depois de um loooongo TP. Longo mesmo: foram quase 24 horas de trabalho de parto.

A história começa como tantas e tantas outras: o pré-natal, a troca de médicos, a procura pelo profissional certo, que nos tranquiliza no meio do turbilhão de sensações de quem espera pra parir um ser humano. O amadurecimento tímido de uma mulher, comparado ao crescimento estrondoso que acontece depois do parto, e as mudanças de sentimento, opinião, sensação...

Tudo isso me fez chegar, aos 8 meses de gravidez, na Casa de Parto do Sofia Feldman, numa manhã de dia de semana qualquer... E foi lá que, pela primeira vez, botei os olhos numa menina. Menina mesmo! Cara de menina, olheiras de cansaço, jaleco azul, tênis branco e um sorrisão no rosto. Ela me mostrava o hospital, a Casa de Parto, acordada desde as 7 da manhã, um pique enorme de quem ama o que faz. Eu estava enebriada com aquele cheiro de novo, de sangue, cheiro de medo.

Difícil acreditar que um hospital do SUS fosse me proporcionar acupuntura, massagem nos pés, ventosaterapia, auriculoterapia...
Sim, naquela época, parto era sinônimo óbvio de medo. A gente é construída pra isso. Medo do parto, de morrer no parto, de sofrer no parto, de dar errado o parto. E foi com aquela menina loira que eu comecei a ressignificar meu medo e minha relação com meu parto, comigo e com a vida que ia nascer alí.

Pra encurtar a história: o restinho do meu pré natal foi por lá. E conheci todas as enfermeiras e tomei um loooongo respiro pra decidir: vou fazer o parto domiciliar. Em casa, na minha cozinha. Eu, meu marido, minha filha e elas. Quanto custa tudo isso? No Sofia, não custava nada.

E desse não custava nada, era em casa e com enfermeiras obstetras e não com um médico, veio a enxurrada de esporros e pessoas me chamando de louca. E as milhares de histórias de bebês que morriam no Sofia Feldman porque lá as mulheres são obrigadas a terem parto normal e é uma loucura e meu Deus, você não é uma índia.

Um exagero de histórias de terror, um monte de gente sem saber direito porque perpetuar tanta notícia ruim e sem fonte alguma, mas fiéis destruidoras da confiança de uma mãe num sistema humanizado. E essa onda de mulheres terroristas me seguiu por dias, semanas.

A sorte é que a mãe da Lis é decidida, é de escorpião, é teimosa e meio exotérica. Não mudei de ideia hora nenhuma, nem depois de receber por inbox um monte de matérias sobre bebês morrendo em partos normais. E o terror de receber notícias de bebês morrendo há poucos dias do seu próprio parto se transformou no ato de coragem que me permite esse relato.

Um monte de meninas <3
Na noite de domingo começavam as dores. E não vou aqui me concentrar nelas. Porque sim: a gente esquece tudo. Sei que eram dores fortes e tudo estava só começando.

Passei a madrugada de domingo com essas dores. Já havia acionado minha doula. E também não quero aqui entrar nesse ponto. Algumas coisas a gente não esquece mas essa, prefiro esquecer. Resumindo essa parte, a doula que contratei não veio e enviou sua substituta.

Mas isso, mais uma vez, se transformou em amor. Porque no final da tarde de segunda-feira a Júnia chegava aqui em casa. Mais uma menina. Olhos de menina, sorriso de menina, voz doce e calma de uma menina anjo. E depois dela, chegou a menina loira. E sua parceira de todo o parto, a menina do cabelo preto.

Eu estava cercada de meninas para ter minha menina. Eu estava com medo. Pra caramba. E a gente passou a noite toda aqui em casa, tentando trazer a Lis.

Acontece que ela não veio. E pra encurtar muito mesmo a história, as seis da manhã de terça, meu olho fundo e desesperado olhou pros olhos delas (das meninas) e implorou: quero ir pro hospital. Não aguento mais.

Me lembro da voz doce de uma delas dizendo: tem certeza que quer desistir do parto domiciliar agora? Você já foi tão longe... Mas uma mãe, quando vira mãe, tem uma voz interna tão forte e alta e clara que eu só respondi: não estou desistindo, estou começando agora meu parto.

Eu sentia que ela vinha e voltava. Ela chegava e voltava. E era uma sensação muito doida. Toda a força do mundo que eu fiz naquela madrugada, certamente me faria levantar facilmente um carro com uma mão só. Mas não bastou pra trazer a Lis pra fora.

E então, elas recolheram o equipamento, elas fizeram minha mala de hospital (que eu não fiz porque achei que ia parir em casa), elas me abraçaram e me levaram pro carro. Essas 3 meninas doces me deram um suporte que não tive nunca antes na vida. E escrevo isso agora chorando. Porque isso é muito, muito grande.

Eram 3 profissionais, eu nunca as tinha visto mais de um par de vezes na vida e alí elas eram minhas irmãs, mães, filhas. Elas eram parte de mim, me dando a mão, me ouvindo xingar, acalmando meu medo constante.

E a do cabelo preto, nunca esqueço: ela me olhava bem fundo na alma e dizia "Você está indo muito bem. A Lis está orgulhosa. Vc está sendo muito forte e corajosa, Marcela". E nunca ninguém havia me dito essas palavras, em 33 anos. Pela primeira vez na vida, eu acreditava nelas.

Chegando no Sofia Feldman, após experimentar a dor que não desejo a ninguém (que é andar de carro com um bebê no canal vaginal, quase coroando), fui adentrando a um outro mundo que também não conhecia. Ser mulher e ser respeitada. Um monte de gente veio me receber e em nenhum momento deixaram de me olhar no olho e perguntar PRA MIM o que eu queria. Está bem, Marcela? Quer sentar, Marcela? Quer tomar um banho? Você aguenta ir até alí? E durante toda a madrugada na minha casa até chegar por lá, minhas meninas me apoiavam, ouviam meu coração e o da Lis. E a menina loira sorria: está tudo bem, querida. Fica calma. A Lis está vindo! E calma eu ficava. Como nunca fiquei com ninguém.

Resumindo mais (porque essa história eu poderia te contar durante 3 dias a fio, sem parar), veio meu pedido para tomar uma analgesia. Já tinha passado mais de 15 horas de parto. Estávamos todos exaustos, eu estava sem comer. E todas elas também. Porque a louca não teve tempo de fazer um café descente. Lembro apenas de ter queijo, chá e café na cozinha, no desespero e na inexperiência de pais de primeira viagem. E elas seguiram firmes, sem sair de perto de mim nenhum minuto, nem pra comer um pão de queijo na cantina do Sofia quando chegamos.

E veio a injeção e eu vi Deus. Literalmente. Minha força voltou, eu conseguia falar, conversar, pensar até. Parei inclusive de xingar e voltei com minhas piadas terríveis. Era um momento bom. E durou 4 horas. Mas ela não veio. Mais uma vez, eu fazia toda a força do mundo e quando parava, ela voltava pra dentro de mim. Não dá pra explicar direito isso. Mas era isso o que eu sentia.

Então veio um médico. E eu tive tanto medo que chorei. E pedi por favor que ele não enfiasse nada em mim. Ele explicava que precisava terminar de tirar um pedaço de bolsa que havia quase estourado ou algo assim, mas eu disse: NÃO. E ele me respeitou. Porque as meninas estavam perto e diziam: a gente só vai fazer o que você deixar, Marcela.

Elas honraram com essa frase por toda a madrugada, todo o dia. E então eu pedi outra analgesia assim que a dor absurda voltou. Elas me alertaram: só pode mais meia dose e acabou. Eu achava que não conseguiria sentir mais aquilo tudo. Mas eu consegui mais longas 4 horas de trabalho de parto.

Tomei banho, andei pelo hospital, sentei na bola, conheci toda a ala de analgesia, vi todos os médicos, chorei baldes. Eu estava bem perto de ficar louca. Eu já nasci meio louca mas naquela hora eu achei que não ia conseguir voltar ao normal nunca mais.

E acho que nunca mais voltei mesmo não...
E as minhas meninas perto. Massagem, abraço, mão na mão, tirando o cabelo do rosto, limpando meu suor. E meu marido o tempo inteiro junto. Sem comer, sem dormir, éramos um bando de guerreiros do parto, unidos numa cruzada que já durava mais de 20 horas.

Nunca reconheci em nenhum ser vivo a força que vi em mim. Eu estava longe de saber o que ia acontecer mas já conseguia ter orgulho de mim. Coisa que nunca tive antes na vida. Mas alí, eu me sentia tão forte e divina e grandiosa que nada podia me parar.

Acontece que a segunda e ultima analgesia estava passando. Já eram quase 17 horas e eu não saí do lugar.

Esse momento aqui é aquele que a gente pensa: a vida é mesmo coisa muito frágil. É outro momento que escrevo chorando muito porque nunca vou me esquecer...

Elas ligaram uma música e me cercaram, como uma tribo. Uma tribo de mulheres e meu marido. Elas chegaram bem perto de mim. Elas cantavam, faziam carinho, mediam o batimento meu e da neném, elas me diziam: Marcela, está tão perto... A Lis está chegando. Que linda ela é. Tem muito cabelo. Já dá pra ver. Eu não tinha forças pra abrir os olhos mais. E acho que desmaiei algumas vezes. Por alguns segundos.

Faltavam 15 minutos para a analgesia passar por completo e eu já sentia tanta dor que não podia mais falar. Foi então que decidi sair da banheira (esqueci de comentar que a água era o único lugar que me sentia segura. Então, fiquei na banheira, no chuveiro, na banheira... o tempo inteiro. Mas a água também desacelerava meu TP. E eu não via. Só olhava os olhos cansados delas e tinha pena. Queria adiantar o processo pra que elas fossem comer, dormir, viver... Mas elas falavam: calma. Temos o dia inteiro, a noite inteira de novo. Estamos aqui por você e com você. Não tenha pressa. Tudo vai dar certo).

Aquelas meninas estavam sem comer e sem dormir. E transbordavam amor e paciência. Além de profissionalismo, claro. Muito profissionalismo. Muito respeito pela condição feminina. Pela fragilidade de uma mulher naquele momento.

E então eu saí da banheira, fui pra cama. E só consegui ouvir vozes muito embargadas dizendo: a Lis está chegando, Marcela! Força. E eu fazia força. E num momento muito tenso, me lembro claramente de ter o abraço da menina do cabelo preto. Eu tava quase desistindo de tudo. Eu não sabia mais o que fazer para trazer a Lis. Ela chegou perto do meu ouvido e disse assim: Marcela, você é uma guerreira. Parabéns por tudo isso o que você está fazendo. Não para agora, tá? Está indo muito bem. A Lis está vindo te conhecer...

Até hoje eu não acredito nessa foto...
E quando dei por mim, estavam todas elas com os olhos cheios dágua, sorrindo um facho de luz junto comigo e com o Chris. Aquelas 3 mulheres meninas pariram junto comigo. A gente estava tão emocionado que o quarto tinha uma cor diferente. A minha vida tinha ficado pra sempre diferente. Eu tinha acabado de nascer!

E isso, ninguém conta! Por isso eu demorei 1 ano, exatamente 1 ano, pra compartilhar.

Eu não lembro o nome delas agora. Eu só lembro dos olhos e do coração delas. E não quero terminar esse relato agradecendo. Porque agradecer a essas mulheres e a todo o corpo médico do Hospital Sofia Feldman não me é suficiente.

Eu quero é que esse post gire o mundo e chegue nelas. Quero que os olhos delas leiam cada linha desse texto e cheguem até o coração dessas 3 mulheres, para que elas saibam que, além de profissionais que trazem vida ao mundo, elas trazem dignidade para outras mulheres, como eu. E amor, amor, amor. Respeito, paciência. Elas trouxeram a Lis e a Marcela ao mundo. Elas trouxeram esperança.


E depois delas, nunca mais fui capaz de pensar de outra forma que não assim: a generosidade e o amor vão salvar o mundo. E eu e Lis vamos espalhar generosidade e amor por onde formos. Em nome daquelas meninas que não desgrudaram da gente nenhum minuto. E que me fizeram, em 33 anos, sentir amor no estado mais puro que pode existir.

Ah, lembrei: as enfermeiras se chamam Tatiany [a menina do cabelo loiro] e Kelly [a menina do cabelo preto] e Júnia, a doula e eu queria que esse post chegasse até elas pra eu compartilhar agora, 1 ano depois, um pouco do que estou sentindo até hoje.  Porque gratidão é a melhor memória que um ser humano pode ter e porque elas precisam saber o quanto as amo, do fundo do meu novo ser.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

As várias mortes de uma mãe

Vocês me dão licença. Vou até sentar aqui porque esse post vai doer. Ele vai falar de uma morte que a gravidez me trouxe. Uma não: várias.

Aqui nesse mesmo blog, há algumas semanas, escrevi sobre meu incômodo com a licença maternidade. Sem explicar demais e em apenas uma frase. Mas isso bastou para trazer outros incômodos. Procurando ampliar a discussão de forma bacana com as pessoas que me questionavam, encontrei esse vídeo aqui, que falou por mim:


E dele, veio o Eduardo Augusto B. Santos, escritor, e me mostrou esse texto. E esse texto, cara... Booooooom!

Olhei pro lado e vi minha história de fora. Achei que precisava falar. Apesar de relutar sempre e tanto contra isso, quero contar 3 das inúmeras mortes que passei para minha filha nascer. E vou fazer isso de um jeito tão honesto que, claro, muita gente vai se incomodar. O legal de ser um zumbi é que a gente não se importa mais com essas coisas... ;)

Primeira morte: a gravidez é um óculos que te faz ver a real intenção das pessoas

Não sei se acontece com todo mundo, se é um mecanismo maluco de defesa da mãe mas aconteceu comigo. No começo doía, eu queria parar de ver,  de perceber, de absorver demais. Hoje, considero uma dádiva. Um turbilhão de sensibilidade foi se transmutando em intuição e destreza. Alí, fui vendo que metade de mim era eu e a outra metade era o que o mundo queria que eu fosse. Cortei essa última metade. Mas a outra também sangrou.

Pra começar: o Rodolfo
Comecei mudando de casa, doei absolutamente tudo o que tinha e me mudei para um lugar novo, com apenas roupa, livro, meu marido e mais um cachorro. Nessa casa, passei toda a gravidez. E ela não tinha mesmo nada, de verdade. Não tinha TV, som, móveis, água quente... Alí, renasci pra confirmar uma coisa q eu desconfiava desde cedo: não se precisa MESMO de 90% das coisas que a gente compra. E dessa fase sem coisas, pude ver melhor as pessoas. E quando vi, precisei me segurar firme na fé. Porque boa parte delas não valia um livro meu. Já as que ficaram, são hoje a minha casa.

Segunda morte: o mundo ficou de mal porque eu não ia parar de trabalhar.

Logo eu, que tinha criado uma empresa de inteligência web com cultura homeoffice e modelo horizontal, lá em 2011, justamente para fomentar um mercado de trabalho mais justo (principalmente para as mulheres). Via aquela luta Ter filho X Ter carreira e nunca entendia porque as 2 coisas não podiam seguir juntas. E elas podem (não sem meia dúzia de pseudo ativistas de mil causas de fachada te chamarem de mulher maravilha com ironia, mas podem).
Vamos repensar o real processo da mulher no mercado de trabalho quando ela é mãe? Ou vamos continuar ora escravizando-as em casa por conta do filho enquanto o homem trabalha ou, a outra escolha não menos cruel,  que é ir pro trabalho morta por dentro por estar longe da sua cria? 
Só  que o caminho era muito maior à minha frente e segui como um touro solto na arena. Metade grávida, metade morta por saber que o machismo triplica quando você está prenha. E vem flechada de todo lado, inclusive, de onde menos se espera. Ouvi de tudo. Teve: vai pra casa, uai... cê não parou ainda?, desculpe querida mas agora que você está grávida vou cancelar o contrato e muitas outras coisas que acertaram meu estômago. Mas a beleza da vida dos corajosos é sempre ter as melhores surpresas. E no mesmíssimo lugar onde vivi isso, também me chegaram flores, abraços, sopa quente, um berçário na agência pra levar minha filha (com apenas 45 dias) e um monte de amor me guiando nessa tarefa.

Sim, ganhamos quiabo de presente.
Então, morri a segunda vez quando entendi que fazer uma mãe cuidar de uma criança sozinha é um crime. A gente precisa não só do pai dela como da vó, do primo, dos amigos, da vizinha, do motorista de ônibus, do mundo inteiro. Abandonar uma mulher que tem uma criança no colo não devia ser aceito em nenhuma sociedade. Mas, por aqui, não é isso que acontece. E quantas noites chorei me perguntando: meu Deus, como a fulana conseguiu? 4 filhos, sozinha, trabalhando pros outros, que dor! E alí também entendi que precisar de alguém não é terceirizar a maternidade. Eu queria criar minha filha e não delegar isso porque ai, a vida de quem trabalha é assim mesmo, boba... Pra mim não ia ser.

Essa é a Cinthia, do Mãe At Work, com as filhas Eva e Aurora:
a moça tá mudando tudo isso com a gente!

Terceira e não última morte: filho é  só UM dos projetos.

Desde antes de pensar em ter uma filha, eu já tinha certeza de que tinha (e tenho) muita coisa pra fazer nessa breve existência. Nunca me imaginei em casa de bobs e Canechom bordando as iniciais do meu marido num roupão mas também não imaginava que ia encontrar um cara tão absolutamente grandioso e forte pra ser o pai da minha filha.

Eu era infeliz e não sabia.
De parir a criar, fazer a comida, cantar, sofrer, decidir, ficar sem dormir, dar de mamar, se recuperar: em tudo ele tava junto, quase que fazendo também. Em absolutamente nenhum momento ele fugiu, deu desculpas ou não pôde. Ele pôde e foi por 3, 4, 5 pessoas ao mesmo tempo: por mim, pela nossa filha, por ele, pelo trabalho, pelo mundo. Naquela hora onde eu só tomava na cara por não achar que minha vida ia acabar, ele foi (e é) a maior inspiração pra uma moça malvada que antes tinha até uma certa preguicinha de homem (maioria machistão, bundão, imaturo e medroso). A sabedoria e a paciência dele me bateram na cara com força (que ironia) até entender que EU estava sendo machista. E dessa lição toda nasceu um dos projetos mais bonitos da minha vida, que está só começando. E não, não estou falando da nossa filha. Estamos construindo um mundo novo pra ela, pra gente, pra você, pra quem não acredita nisso também, com a cara e a coragem, e é a mesma sensação de nascer. Você chega pelado, sem saber nada, sem entender nada. E vai, bravo e corajoso, um dia de cada vez, se formando gente, se fazendo cada dia mais forte.

Uma vida é pouca.
E tem mais gente que nem o pai da Lis pelo mundo. Ufa!

Depois de tudo, fica a porrada. Cada vez que eu renascia dessas mortes, via um mundo mais caótico, confuso, raivoso e perdido. Só que, estranhamente, em vez disso tudo me deixar triste, me deixava mais esperançosa. Sinal de que as coisas estavam mudando. Sinal de que eu não fazia parte de uma minoria sonhadora que falava em mudança. EU ERA A MUDANÇA.

É hora de enfrentar a sociedade patriarcal. É duro mas a gente aguenta.
Hoje, tenho um orgulho danado de mim. Pelas minhas 20 horas de parto normal, por ter largado tudo, ressignificado tudo, lutado como uma doida pela minha verdade, por não ter aceitado entrar na caixinha da mulher indefesa que teve filho, por ter refeito tudo de um jeito MUITO MAIS HONESTO e melhor, por ter feito uma família, um lar, uma nova Marcela, em apenas 1 ano e 1 mês. Hoje, eu me respeito, trabalho com o que amo sem aceitar suborno de ninguém, muito menos de mim mesma, sem aceitar mediocridade, cercada de pessoas que admiro (e conhecendo outras tantas, a cada dia) e com projetos que não só acredito como fico envolvida até o último pedaço do útero.


Não existem mais farsas no meu dia, não existem meias verdades nem poses, nem máscaras, nem falsidade, nem cara amarrada, nem fofoquinha, invejinha, puxadinha de tapete, conversinha pelo corredor. Não existe corredor! Hoje, sou mais do que nunca uma FORMIGA pequenina e guerreira, trabalhando no meio de um milhão de outros bravos soldados nessa terra imensa, cuidando do meu pedação de futuro com garra e orgulho, lá debaixo da terra, sem holofote, sem querer Iphone 6, focada na missão de construir um mercado novo, justo, onde a gente não aceite mais tapa na cara, disputa, desrespeito e baixaria, lutando para que o consumo seja repensado, para que a educação das nossas crianças seja reformulada, para que as mulheres sejam respeitadas, para que aquele mundo egoísta das pessoas pequenas e donas de tudo seja implodido, porque como ele estava, não dava mais.


Hoje, sei que não sou a única. E se você me leu até aqui, também não é. Me escreve, me liga, me grita... vamos ser muito mais. Quem bom que tem a gente!

Com amor,
MB ;)






quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Vamos escrever os livros dos nossos filhos?

Sempre tive essa vontade secreta: escrever. E de fato, na gravidez, escrevi um livro pra minha filha.

Primeiro rascunho que nasceu essa madrugada...
Eis que essa noite, escrevi o segundo e pensei: e se a gente pudesse fazer isso juntos? Mães, pais, avós, amigos, padrinhos, toda a família? Escrever os livros que nossos filhos vão ler, com histórias pessoais, do dia a dia da criança, da realidade dela...

Bom, é uma ideia embrionária que está hoje no laboratório da minha empresa. E enquanto prototipo o projeto na Formiga, resolvi compartilhar o meu primeiro livro colaborativo com vocês. E ver se mais gente topa, e ver se vocês gostam, e ver a cara da Lis enquanto mostro o livro pra ela no Ipad...

Já to achando que valeu a pena. ;)

Para continuar a história, envia sua participação por email. Pode enviar com ou sem a ilustração. A gente continua essa ideia juntos e, daqui a pouco, lanço o volume 2, com um pouquinho de história vinda de cada um de vocês. Como um presente pra Lis (e pros nossos filhos).


Vem comigo, gente?

Com amor,
Mamai

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Mãe sem culpa

Meses se passaram e o mundo espera o post que vai enfim vai trazer aquele desabafo sofrido sobre a dificuldade maior em ser mãe.

Bom, anotei aqui e a pior parte de ter filho é:

- dormir uma noite inteira...  Não.
- ter vida a dois de novo? Não.
- iniciar a alimentação do bebê? Não
- arrumar a casa, trabalhar, voltar a vida normal? Não!

Pasmada. Minha filha fez 6 meses e a maior dificuldade que encontrei até agora com o nascimento dela não tem porra nenhuma a ver com ela.

Doidas, desalmadas e atrevidas.
A merda maior é enfrentar o mundo revoltado que você é uma mãe sem medo, sem culpa e sem neura. E mais: que você não quer disputar filho, nem educação, nem crença. E pior ainda: que você não tem dó da sua filha e muito menos de você mesma. Que horror!

Uma mãe que coloca roupa de menino na menina.
Se você não se veste de branco com o cabelão comprido, não compra uma enorme mala rosa com o mundo do bebê la dentro, se você não demora 3 horas pra sair de casa com medo de esquecer alguma coisa, se você não chicoteia as costas a cada decisão que toma com relação ao seu filho ou quando não faz amizade imediata com qualquer mulher com criança no colo: PARA TUDO que você é uma mãe LARGADA.

Toxic Girl
Se você não reclama, não está surtada o tempo todo choramingando a nova vida, se volta a trabalhar normalmente porque ama trabalhar tanto quanto ama seu filho (e pode amar algo tanto quanto um filho? - a resposta num outro post), se opta por não se enfurnar 6 meses em casa desenhando uma rotininha pra criança que nem ela aguenta, se você acha que licença maternidade só existe porque empregos desrespeitosos existem, cuidado: você é uma EGOÍSTA.

Se você não vive com medo que seu bebê vai engasgar, morrer, sufocar, se você não faz escândalo quando bate um vento, quando ele acorda com uma febre, se não se descabela quando o neném chora demais e até xinga ele por isso, se ri quando erra em algum percurso diário ou quando o cachorro lambe a boca do seu filho e não se castiga porque ficou cansada e fugiu da criança que acordou 2 vezes de noite... Bom, o mundo vai te olhar feio. Muito feio!

Nossa, mãe! Como somos Stock Image...
Nossa sociedade criou um jeito de maternar que não pode existir sem ela: A CULPA. Mãe sem culpa não é mãe, não é boa mãe, não deveria nem ter tido um filho. E isso é tão absurdo que chega a doer. Ver mães desesperadas, adestradas, competitivas, entrando num universo materno digno de mestrado, anotando todas as cartilhas, todos os macetes, angustiada, sem dormir, sem viver, não pelo filho em si mas pra seguir certinho o que tem que ser feito pra provar que é boa mãe. Esse é o novo mundo que está criando novas pessoas. Um exército de mães perfeitas julgadoras das outras mães malucas.


E no meio da gincana toda, fica a criança, esperando uma mãe aparecer. Ainda que brava, cansada, vomitada, descabelada ou linda, arrumada, indo pro trabalho ou o que for... Um neném espera apenas a sua mãe porque é ela que ele quer ter por perto. Ou até o resto dela, que também já serve.

E ser inteira é a melhor parte de ser mãe. Justamente por isso que todo o resto também é uma delícia. E me desculpe os que torceram pra eu estar fudida: eu nunca fui tão EU quanto SOU agora.

Eu nunca estive tão feliz. 

Fodaz, mundo! Ass: mamai

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Baby Blues x Baby Rock

Estamos de volta, agora na tão esperada e atualizada versão do app Gravidez: a versão 2.0, a.k.a. com nenem. Portanto, mais objetiva e direta que nunca.

Comece não acreditando em tudo o que tá no BabyCenter.
Baby Blues. Gata, seguinte:  joga no Google, lê tudinho, com cautela, entenda os pormenores e permita-se ter isso da sua forma, desconsiderando firmemente essa mídia ridícula aí que coloca na sua conta as merdas desse sintoma totalmente químico, ditando impropérios como: poupe seu marido, segure a onda pelo seu bebê, tente cortar o cabelo e se maquiar pra melhorar, aceite a opinião das pessoas em volta, entenda que o bebê precisa de você o tempo todo e por aí vai.  Segura a cabeleira suja que este post vai ser bem rápido, diretão, papo reto... Não pq o nenem tá me dando trabalho mas pq acho que olhar pra cara dela é mais divertido que olhar pra tela clara do pc.

You know that I'm no good...
Enfim, Baby Blues é um período relâmpago que chamei de rebordosa e sim, existe pra caraleo. Se deixe ter. A primeira coisa. Informe-se, chore, xingue, faça exatamente como seu coração manda, evite a culpa, derreta-se de culpa, acorde descabelada e se odeie, escove o dente e se ame, viva alguns dias como se fosse o Oswaldo Montenegro, fique bem maluca mesmo, não escute ninguém, não faça nada que não queira. Exatamente isso: nada. E não ache que seu nenem vai morrer por isso, por favor. E não ache que seu companheiro vai te largar. E não ache nada. Apenas seja a locona do pós parto. E fodaz tudo. Entende?
 E como não? E porque não dizer que o mundo respirava mais se ela apertava assim?
O lance é que você ficou 9 meses com os hormônios do amor lá no talo. Te chamavam de puta na rua, vc agradecia e sorria como uma fada. E então esse app bizarríssimo, chamado Gravidez, é atualizado para a nova versão 'mãe de fato'. E eis que na atualização, perde-se TODO (eu disse: TODO) o hormonão delícia de uma vez só. Olha como o desenvolvedor vacilou. Dava pra fazer a queda mais devagar? Dava. Mas não, eles decidiram tirar tudo em 10, no máximo 15 dias. E então o efeito é: uma puta deprê.

Anote aí no que consiste o Baby Blues e já, de brinde, umas dicas de como lidar (que chamei de Baby Rock, tipo: mãos a obra pra lidar com essa merda) e tomara que ajude vc, que é diferente de mim, claro:

. Vontade de chorar absurda, por tudo e por nada.
> Dica: chore tudo, a hora que quiser, pelo que quiser.

. Raiva dantesca da intromissão das pessoas na sua vida, das opiniões, do faz assim, faz assado, assim tá errado, eu fazia assim e tal.
> Dica: Poupe-se, proteja-se, afaste-se, permita-se ficar mais na sua.

. Sensação de que é muito mais complexo do que parecia e que vc não vai dar conta.
> Dica: passa rápido se vc não entrar na bad trip. Desperta geralmente quando vc vai pegar no colo e erra a mão, faz alguma cagadinha, tenta tirar a blusa da criança sem tirar a manga primeiro e esses vacilos normais. Respire e pense: em 1 mês tô dominando essa plataforma e sim, sou foda. Meu nenem me curte.

Calma lá, gente...
. Insegurança a nível de alta baixa estima.
> Dica: vai rolar de se sentir péssima. Não tem jeito. E não, o caminho não é se maquiar, fazer luzes, cortar o cabelo, fazer unha. Isso são os paliativos impostos. O lance não é por fora. É por dentro. Dê uma boa penteada no seu amor próprio, entenda e veja a grandeza de ser mulher, de ser mãe e que isso é mais foda que muita coisa que vc fazia antes. Não caia na armadilha de achar que estética resolve dialética. Pense, analise, entenda-se, resignifique-se. Não foda a si mesma nessas horas. Nunca.

. Sensação de que sua vida nunca mais vai ser a mesma.
> Dica: você está certa. Não vai mesmo. Mas olha que legal... Quem nasce, cresce, reproduz e morre sempre igual é planta. E muita gente, claro. Mas que boring, né? Tente ver a beleza de nascer de novo, junto com sua cria. Tente conhecer a sua nova versão que, com certeza, é muito mais foda que a versão passada. Esquece esse papo de nunca mais você vai ter tempo, pro resto da vida alguém vai depender de você, esqueça noite de sono, sair, tomar um porre, namorar, viver, dançar. Mentira isso, juro! Você pode e deve fazer tudo isso de novo, só que agora, muito mais livre. Porque é pra você mesma e não pros outros. Quem inventou que filho é um problema tem problema. Filho é massa se você começar não seguindo o que sua mãe conta e o que as revistas pregam. Simples assim.

Colega: essa imagem é forçada, tá?
E o mais importante, pra fechar: desconstrua, todas as vezes que puder, a Ideologia da Maternidade, como bem disse a foda da Márcia Tiburi.

Tem muitas outras coisas (deixe nos comentários mais dicas pra gente se ajudar). E pra quem prometeu que o post ia ser direto: outra prova de que a gente nem muda tanto assim. Tá aqui a mãe prolixa fazendo um post enorme em consideração a todas as mulheres desse mundo que tem a grandeza e a coragem de parir, criar, nascer de novo e fazer do mundo um lugar melhor apostando que novas pessoas trazem a esperança de novos processos, logo, novo mundo.

Já para você que pensa que filho é pra si, pra não ficar sozinha, pra fortalecer o casamento, porque tem que ter, porque tá na idade e tal e coisa: licença, tenho um tanto de coisa pra fazer e não quero ficar deprê.


Um beijo triste,
Mamai



segunda-feira, 6 de abril de 2015

Obesidez e gravidade


Pesquisas apontam (mentira, eu que estou dizendo com base numa coisa que não uso muito, mas aqui me permito: o achismo) que 78% das mulheres que descobrem que estão grávidas pensam primeiro se vão engordar e depois ficam felizes. Destas, 97% escutam as frases abaixo (da mãe, da sogra, do pai, do ex, da amiga, da vizinha e pasmem, ás vezes, do próprio marido ou garanhão que a tenha emprenhado):

- iiiiih, vai engordar
- cuidado para não ganhar muito peso na gestação
- você vai ficar enorme
- só pode engordar 8 kgs 
- eu engordei só 1kg na minha gravidez

Bem, se você chegou nesse post porque está aí, toda grávida, digitando no Google "como não engordar na gravidez", vou aproveitar sua audiência pra te dar uma real: deixa de ser imbecil, minha filha!
Nossa, como ela engordou na gravidez, cê viu, menina? Dãããã
Grossa? Eu? Não, pera, vem cá... deixa eu te explicar. Lá estou eu com 33 anos de idade, uma pessoa bem informada, feliz e livre, até que engravido. Juro que pensava que não ia acontecer comigo, mas acontece. O povo acha mais importante apontar a estética do que falar do fato simples e fácil de você estar gerando uma vida. Foi muuuuuita gente se metendo nas minhas entranhas. Siiiim, nessa hora, anos e anos de Cláudia, Boa Forma, Bem Estar, mídias em geral, essa merda toda, falaram mais alto que minha emancipação. E chega a ser surreal esse tipo de constatação no meio da enxurrada de forças absurdas da - abre aspas, que ódio, opinião pública boçal - fecha aspas com raiva, onde quilos de clichês se espalham mais rápido que os hormônios, disfarçadinhos de preocupação com a saúde.

Nasceu. O bebê ou a lipo primeiro, senhora?
Anote aí os principais:

- engordar na gravidez é ruim pra saúde da mãe e do bebê (whaaaaat? como seu útero aumenta 1000 vezes o tamanho normal, vc fica com 5 litros de sangue a mais no corpo, a gordura é estocada naturalmente no quadril para facilitar o parto e proteger o útero e engordar é ruim?)

- o aumento de peso tem que ser controlado o tempo todo (nããão, para! tem que controlar pressão, glicose, taxas basais normais, o peso nãããão. É como pedir pra mulher ficar a gravidez inteira prestando atenção na respiração que se acelerar um pouco você tá fudida...)

- tem que fazer exercício físico a gravidez inteira pra evitar estria e sobrepeso (tem que fazer pooooorra nenhuma, tem que fazer o que te deixa bem, de acordo com o que seu corpo pede. Andar se quiser, não forçar caminhada, academia, dieta merda nenhuma. A vida é simples e não é em 9 meses  e com uma barriga gigante que você vai preparar a resistência pra se sentir mais certinha como mãe, anta!)

- obesas tem problemas na hora de parir (avápaputaquepariu quem afirma isso com a boca cheia e vai ler esse blog lindo aqui ó: Mães de Peso)

No mais, preciso só te alertar que tem uma indústria ainda maior que a da beleza dentro do universo da maternidade. Porque, prenha, a mulher tende a ficar mais sensível, sugestionável (leia-se consumista: compra tudo o que mandam, mesmo sem ter condições), cheia de dúvidas e medos, tudo é novo, o corpo muda o tempo todo e tudo o que era não é mais. Você perde um pouco a memória, o senso crítico, a força mas olha, juro, o amor próprio não. Você não perde isso não, prometo!

Ai, Miga! Tô de oito meses de gestação e não tenho barriga, olha! oO
Se você entrou na paranóia do corpo bem na hora que estava gerando outro, por favor, leia de novo esse post, leia outros, assuste-se terrívelmente com isso aqui e pare pra pensar. Não estamos aqui brigando com os biotipos lindos que não ganham mesmo peso ou com as mulheres que se sentem bem malhando, nadando, correndo... não! Estamos só pedindo que você reavalie e vanglorie seu corpo, a naturalidade do processo e A VIDA antes de vangloriar impensadamente a yoga, a nutricionista terrorista de merda, a academia na promoção pra grávida, o iogurte zero com gosto de areia doce, o óleo de amêndoa de 60 reais, essa merda toda que te oprime há séculos e agora, mais do que nunca, vai querer te pegar pelo pé.

Eu vi isso, juro. Eu dei uma preocupada com engordar no começo, eu tava cega, burra e por uma fração de semanas, fiquei meio pensativa. Sorte que retomei meu EU lírico rápido e ví... Gente! É como lutar contra o óbvio. Vacas, coelhas, cachorras, mulheres, porcas, bezerras... todas as fêmeas aumentam durante a gestação e aí vem um padrão e diz: nossa, fulana está sem cintura na gravidez. É surreal, é irracional!

Pelos grupos que passei, em boa parte vi: mulheres se martirizando e fazendo posts e mais posts, comentários e mais comentários sobre seus medos de estarem engordando, e o marido não me quer, e vou ter estria e gastando tardes e tardes nessa nóia enquanto fazem nada menos que um osso! Já paramos pra pensar nisso? Estamos produzindo um osso, um sistema nervoso, UM SER HUMANO, caráleo, bem ali na nossa barriga e nos perdendo nessas preocupações impostas. E muitas mentem, dizem que não engordaram, como se fosse motivo de vergonha... Se engordar é o certo, como pode o sistema emplacar na gente o contrário? Fico até sem ar de pensar em como chegamos até aqui...

Conheça o Projeto da Jade Beall
Aceita sua bundona larga, a cintura sumindo, fica feliz, fica mulher, linda, firme, forte e flácida. A gravidade vem pra todo corpo que pisa a Terra e a obesidez que se foda. Vai ser prenha toda que, ó, quando você estiver pra parir, ou parindo, ou parido 'ce vai ver, boba...', não tem nada mais magnífico que gerar uma vida, catzo!

E colocar um ser humano no mundo, fazer dele uma pessoa de bem, passar por tudo isso como uma guerreira, diva, geradora de vida e anca... isso ninguém fala mto, coisinha. Mas, isso sim, torna uma mulher bonita, gostosa e foda pra caráleo.

Tamos combinadas?

Love,
Mamai
 
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